Aparelhos Intraorais, seus riscos sem acompanhamento

03/03/2017

Aparelhos Intraorais: Funcionamento e riscos do uso sem acompanhamento03

Nos últimos anos, foi possível notar um aumento no número de pessoas que fazem uso de algum aparelho intraoral (AIO) para o tratamento de determinado distúrbio do sono. Muitas vezes, porém, o uso do aparelho não é feito corretamente, e o paciente não conta com o acompanhamento de um profissional especializado. Para entender o funcionamento dos AIOs e os riscos que o uso de aparelhos intraorais sem indicação adequada pode causar, entrevistamos a Dra. Cibele Dal Fabbro e o Dr. Marco Antônio Cardoso Machado, respectivamente presidente e diretor científico da ABROS (Associação Brasileira de Odontologia do Sono). Confira abaixo:

Quais são as indicações dos Aparelhos Intraorais (AIOs) para o tratamento dos Distúrbios Respiratórios do Sono (DRS)?

Dr. Marco Antônio Cardoso Machado: Os AIOs são indicados, principalmente, para os quadros de ronco primário, Síndrome do Aumento da Resistência da Via Aérea Superior (SARVAS) e Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) de grau leve ou moderado. Em alguns casos, os AIOs podem, também, ser utilizados em associação a procedimentos cirúrgicos. Os pacientes com SAOS grave que não se adaptam ao tratamento com CPAP e abandonam o uso do aparelho devem fazer uma segunda tentativa de controle da SAOS com AIOs.

Quais são os aparelhos intraorais utilizados com mais frequência?

Dra. Cibele Del Fabbro: Os aparelhos intraorais constituem, ao lado dos aparelhos de pressão positiva (CPAP, BIPAP), as formas mais comprovadas de tratamento clínico para pacientes com ronco e apneia do sono. Esses dispositivos são usados dentro da cavidade oral, com objetivo de prevenir colapsos na via aérea superior, entre a base da língua e a faringe. Há vários tipos de AIOs, mas com certeza os reposicionadores mandibulares e os retentores linguais são os mais conhecidos, sendo o primeiro o mais estudado e com maior evidência científica entre os AIOs. Os aparelhos reposicionadores mandibulares são os mais usados e podem ser pré-fabricados, personalizados, e ainda ajustáveis ou não (propiciando a adaptação da posição mandibular). Segundo força-tarefa publicada pela AASM e ADSM em 2015, as diretrizes indicam que os AIOs personalizados e ajustáveis são os mais efetivos de todos. A utilização de tais aparelhos necessita de uma avaliação odontológica especializada, periodonto, oclusão e perfil facial dos pacientes. Os AIOs são confeccionados mediante moldagem e registro da melhor posição mandibular, e requerem que o dentista faça, além dessa avaliação inicial e escolha do modelo de AIO para o tratamento, a titulação e o acompanhamento em longo prazo e o monitoramento do distúrbio respiratório do sono, assim como possíveis efeitos adversos do tratamento.

Existe algum tipo de receita para que o paciente possa adquirir os equipamentos, ou a compra destes é livre em farmácias e lojas especializadas?

Dra. Cibele: Essa é uma pergunta extremamente importante, visto que os AIOs são confeccionados por cirurgiões dentistas mediante indicação médica e avaliação e indicação odontológica. Em alguns países, como nos Estados Unidos, por exemplo, há a venda livre em farmácias de AIOs pré- fabricados, comprovadamente menos eficazes. Esses são dispositivos universais que são adaptados sobre as arcadas dos pacientes para propiciar retenção da língua ou avanço mandibular. Porém, tais aparelhos são usados em outros países para uso temporário, não devendo ser indicados como tratamento definitivo. No Brasil, tais aparelhos estão chegando ao mercado sem o monitoramento do cirurgião dentista, o que oferece um risco bastante preocupante aos pacientes que fazem o uso sem acompanhamento ou avaliação odontológica.

Quais são os maiores riscos do uso desses equipamentos sem a avaliação e o acompanhamento de um especialista?

Dr. Marco: Há vários riscos dessa abordagem:

  • Apoio do aparelho sobre dentes sem condições clínicas de receber um AIO, como: perda óssea, cáries, infiltrações. Nessas situações, o AIO, por não ter passado por um planejamento, pode agravar tais situações, podendo levar até mesmo a perdas dentais.
  • Uso de AIO em pacientes com DTM (disfunção temporomandibular): como os aparelhos de avanço mandibular trabalham com a protrusão mandibular, pacientes com dor ou história de DTM podem ter seu quadro agravado, tanto na forma de dor, quanto na forma de alteração ou limitação das funções mandibulares, podendo alterar a dinâmica mandibular e oclusal.

Qual é o especialista mais indicado para avaliar o paciente, indicar o melhor aparelho e acompanhar o caso?

Dra. Cibele: O especialista mais indicado é o dentista com formação em Odontologia do Sono. Hoje, a ABS/ABROS dispõe de um exame de certificação bianual para certificar dentistas nessa área. Para prestar esse exame, o dentista tem que passar por formação mínima de 180 horas nessa área e apresentar três casos clínicos – sendo que um dos casos deve ter no mínimo um ano de acompanhamento – a uma banca de examinadores. A ideia desse exame é nivelar o conhecimento em Medicina e Odontologia do Sono por tais profissionais, tornando confortável ao médico a indicação de seus pacientes a um dentista certificado e listado no site da ABS/ABROS.

Qual é a importância da divulgação aos leigos do acompanhamento correto em casos de uso de AIOs?

Dr. Marco: Apenas profissionais que têm formação em Odontologia, e mais especificamente em Odontologia do Sono, estão aptos a realizar o tratamento com AIOs. Assim como o diagnóstico é eminentemente médico, o tratamento com AIOs deve ser realizado somente pelo dentista, já que esse profissional tem conhecimento para diagnosticar e tratar as alterações ou doenças do sistema estomatognático. Realizar esse tratamento com qualquer outro profissional pode comprometer a saúde bucal e pode predispor a efeitos colaterais não manejáveis pelo não-dentista.